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Estanco Louro

Manuel Francisco do Estanco Louro

São Brás de Alportel, 1890 - Lisboa, 1953

Professor, Etnógrafo e Linguista 

 

Nasceu no seio de uma família numerosa e modesta de agricultores da beira-serra algarvia, no sítio de Alportel, em São Brás de Alportel, à época uma freguesia rural do concelho de Faro. Concluiu, em 1904, com distinção, o ensino primário. Devido à sua viva inteligência, e a conselho do seu professor, a família decide que seja o único filho a prosseguir estudos no Seminário de Faro. Por manifesta falta de vocação eclesiástica, abandona o seminário e, custeando as suas despesas dando lições particulares, matricula-se no Liceu Nacional de Faro, concluindo o ensino liceal no ano letivo 1910-11.

O jovem Estanco Louro vive intensamente, em Faro e em São Brás de Alportel, o movimento de ideais republicanos que irão marcar de modo indelével a sua atitude ética e cívica ao longo da vida. Em 1912, matricula-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no curso de Filologia Românica. À data eram professores desta faculdade José Leite de Vasconcelos e José Maria Rodrigues, de quem foi aluno, José Joaquim Nunes, filólogo, e David de Melo L. Lopes, arabista, que publicaram no âmbito da linguística, onomatologia, toponímia e etnografia portuguesas. Estes professores influenciaram a sua opção de investigação em torno da linguística histórica e da etnografia algarvias.

 

Imagens de Estanco Louro quando concluiu o Liceu, da Associação Académica que integrou e do Liceu de Faro, cerca de 1911.

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Há 100 anos!

«Quando começámos os estudos filológicos, na Faculdade de Letras de Lisboa (1912-1913), surgiu-nos a ideia de escrevermos um livrinho, que daria a conhecer a fala alportelense. Começámos logo a coligir materiais para ele e, exceptuados os longos meses, que passámos nos quarteis e nos plainos da Flandres, para onde o turbilhão da Grande Guerra nos arrastou, só agora descansámos dessa longa labuta de uma dúzia de anos, tão árdua como agradável.»

O Livro de Alportel é, no que concerne à metodologia de recolha e tratamento da informação, à diversidade e pertinência, a obra central de Estanco Louro, a partir da qual derivam as restantes, aprofundando ou alargando certas temáticas inicialmente aqui estudadas.

O propósito inicial de um estudo linguístico rapidamente se transformou num estudo etnológico. N’O livro de Alportel, ainda é marcante a sua visão linguística dominada pela variação ou diversidade das formas fonéticas, morfológicas e sintáticas, decorrente da escola dominante na academia lisboeta. Só mais tarde, Estanco Louro se debruçará sobre as variações lexicais e semânticas.

Quando regressa da Grande Guerra, em 1918, Estanco Louro tem pela frente os desafios que na época se colocavam a qualquer jovem: encontrar um emprego estável e constituir uma família. Atingidos estes objetivos em 1921, inicia a luta pela publicação d’O Livro de Alportel, o que acontecerá pela primeira vez em 1928, em dois volumes, como separata do Boletim da Agricultura e, posteriormente, em 1929, em monovolume.

Entre 1919 e 1929, a produção literária de Estanco Louro será fervilhante!

 

Capa da 1.ª edição em monovolume de 1929 e a primeira reedição em fac-simile, em 1996, pela Câmara Municipal de São Brás de Alportel.

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A Grande Guerra 1914-1918 – uma reflexão de Estanco Louro

 

A pedido do reitor do Liceu Pedro Nunes, em 1924, escassos 6 anos após o fim da guerra, Estanco Louro profere uma palestra que descreve a sangrenta Batalha de La Lys, decisiva no decorrer da Guerra. 
Em 2002, publicado no n.º 42 da revista Ler História, Ana Luísa Paz e Maria Lucília Estanco Louro apresentam e contextualizam as reflexões de Estanco Louro.

De acordo com Ana Luísa Paz, enquanto em Paris, João Chagas e, em Londres, Teixeira Gomes preparavam a intervenção portuguesa na guerra, em Portugal os partidos digladiavam-se na imprensa. A formação do Corpo Expedicionário Português é pautada por um conjunto de dificuldades, muitas delas intrínsecas ao próprio exército em transição após a queda da monarquia, à crónica crise financeira e ao armamento obsoleto, que resultara nas guerras nas colónias mas não se adaptava à frente da Flandres.

Muitos soldados vieram diretamente das guerras em África para a Flandres e a escassez de oficiais era gritante.

Estanco Louro foi recrutado como alferes miliciano. A reflexão que deixou conclui que a participação de Portugal na guerra, nas circunstâncias em que o país se encontrava, foi um tremendo erro da classe política, mais grave ainda perante a atitude dúbia da Inglaterra, e o número de mortos injustificável. Somente o facto do povo português ser genuinamente heroico permitiu uma participação honrosa.

Excerto da palestra que descreve minuciosamente a viagem, a instalação nas aldeias da Flandres e com muito detalhe e emoção a Batalha de La Lys:

"Os soldados vão aninhar-se aos montões, em currais ou palheiros, muitas vezes esburacados; os sargentos e oficiais para os quartos vagos da gente pobre, mas caminha limpa (…) – nos mesmos palheiros, nas mesmas camas onde já tinham dormido franceses, ingleses, e portugueses e às vezes alemães (…)

Faz hoje 6 anos, às 4 horas precisas, começa a travar-se a grande batalha que ingleses e alemães chamaram Armentières, nós, do Lys. Entre os combatentes havia uma desproporção extrema: 8 alemães por cada soldado de Portugal; por cada peça nossa, vinte inimigas. Nem um milagre portanto nos poderia dar a vitória, mas a resistência de um punhado de homens desprevenidos espantou a Europa porque foi heroica e sublime."

 

Nas imagens: fotografia de Estanco Louro com a farda de alferes miliciano; página do passaporte que identifica o militar e permite a sua deslocação em território francês e a carta militar distribuída. Anexamos a primeira página do texto desta palestra.

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1919-1929 – Uma década fervilhante de investigação e publicação rumo ao doutoramento

 

Tendo sobrevivido à guerra e necessitando de procurar um emprego estável, Estanco Louro matricula-se na Escola Normal Superior para se habilitar ao exercício do magistério liceal. Em Agosto de 1919 é professor agregado no Liceu Pedro Nunes. 

Estanco Louro pertenceu a uma geração de professores, que nas primeiras décadas do século XX, procuraram remodelar a metodologia do ensino em Portugal, promovendo uma pedagogia de bases científicas e as didáticas disciplinares adequadas ao seu êxito. Publica várias gramáticas, um estudo comparativo dos primeiros gramáticos portugueses do século XVI e, ainda, um estudo de literatura comparada do mesmo século. A pesquisa que realizou para estas publicações em torno da evolução histórica da língua portuguesa, discutindo aspectos da fonética, sintaxe e formação vocabular, e os estudos comparativos sobre cultura e línguas latinas serão fundamentais para a alteração de paradigma da sua investigação posterior, afastando-se de alguns cânones então vigentes na academia de letras.

Ao evolucionismo histórico aplicado à linguística, com o inventário rigoroso da fonética, irá contrapor uma visão etno-geográfica que considera mais dinâmica e a aplicação da geografia linguística.

À visão etnográfica de recolha de lendas e aspectos do folclore, que dominavam os estudos etnográficos, aplicará uma análise aos padrões de organização económica e social, condicionados pela geografia, ambiente natural e história local.

Neste período de intenso labor, de investigação e publicação, entre 1919 e 1929, também concluiu outros graus académicos: a licenciatura em Direito, em 1922 - exerceu aliás a profissão de advogado em Beja (1922-23) - e o Diploma de Estudos Camonianos, em 1927. Neste último, é distinguido pela dissertação e lição pública sobre o tema Os Lusíadas e o povo português: no vocabulário, na qual apresenta a primeira classificação lexicográfica e sublinha a importância da fala popular nesta obra de Camões. 

Convive e debate a sua investigação e ideias com outros intelectuais, em particular com Leite de Vasconcelos, pois o apaixonado interesse de ambos pela dialectologia e etnografia estreitara o relacionamento inicial entre mestre e discípulo, com o Dr. José Maria Rodrigues, que respeitava como mestre, e com Fidelino de Figueiredo, entre outros.

Finalmente, em 1929 propõe-se a doutoramento com a investigação condensada na sua obra charneira – O Livro de Alportel

 

Nas imagens alguma da correspondência trocada com outros investigadores e com a personalidade são-brasense mais respeitada por todos os intelectuais algarvios – Bernardo de Passos.

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